MASP apresenta a primeira exposição individual de Joseca Yanomani

Imagem: Yamanayoma, 2013. Caneta hidrográfica, lápis de cor e lápis grafite sobre papel, 29,5 x 42 cm. Doação de Clarice Tavares ao acervo MASP, 2021

No ano de celebração dos 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami, a mostra exibe desenhos sobre a cosmologia e a vida cotidiana deste povo

 

Joseca Yanomami, Yamanayomanɨ thë urihi karukaɨ xoao tëhë wamotima thëpë raruu totihio tëhëma thëã. Yamanayoma a, [Quando Yamanayoma, o espírito feminino da abelha, continua andando com seus passos curtos e firmes pela terra, os alimentos crescem bem. Esta é Yamanayoma], 2013. Caneta hidrográfica, lápis de cor e lápis grafite sobre papel, 29,5 x 42 cm. Doação de Clarice Tavares ao acervo MASP, 2021

 

MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e o Ministério do Turismo apresentam, de 29 de julho a 30 de outubro de 2022, a mostra Joseca Yanomami: nossa terra-floresta, no 1o subsolo do museu. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e David Ribeiro, assistente curatorial do MASP, a exposição reúne 93 desenhos de personagens, cenas, paisagens e fenômenos do universo yanomami, tendo como referência a floresta, seus povos, suas histórias e os cantos xamânicos. Esta é a primeira exposição individual dedicada aos desenhos do artista, apresentando parte expressiva de sua produção no ano em que são celebrados os 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami. A mostra tem patrocínio master do Bradesco e patrocínio da Livelo.

Joseca Yanomami (1971, rio Uxi u, Terra Indígena Yanomami) é um artista visual integrante da comunidade Watoriki, da Terra Indígena Yanomami, no Amazonas. Interessado pelas áreas de saúde e educação, fundou, na década de 90, a primeira escola yanomami de seu grupo, incentivando crianças no aprendizado da escrita e no estudo de línguas, processo que havia, então, vivenciado recentemente. Na época, participou da produção de inúmeros folhetos bilíngues (yanomami/português) para programas de educação escolar e de saúde criados por ONGs brasileiras. No começo dos anos 2000, Joseca foi o primeiro Yanomami a trabalhar na área da saúde. Nessa época, ele também começou a esculpir animais da floresta em madeira, e, logo em seguida, passou a se dedicar também a desenhos que ilustravam elementos e histórias da vida, do cotidiano, do contexto e da cosmologia yanomami.

Para a exposição foram reunidos desenhos, de 2011 a 2013, sobre a terra-floresta amazônica e todos os seres que nela habitam, trazendo diversos elementos que compõem a cosmologia e a vida cotidiana de seu povo e remetem aos esforços dos xamãs, das lideranças e dos espíritos. “Os desenhos de Joseca nos permitem, a partir do nosso olhar e do nosso sentir, perceber que a diversidade habitante da floresta também é formada pelos xapiripë, os espíritos que garantem a todos nós, indígenas e não indígenas, a certeza de que o sol nascerá no dia de amanhã e que o céu não desabará sobre a nossa cabeça”, reflete o curador David Ribeiro.

Suas produções buscam dar corpo aos cantos, sonhos e histórias narradas pelos xamãs, um registro que, além da expressão artística identificada à primeira vista, dá cor e forma aos espíritos vistos apenas por aqueles que passam pelo processo de tornar-se um líder espiritual. A maior parte dos desenhos é acompanhada de descrições feitas originalmente em yanomami pelo artista e que dão conta das dimensões cosmológicas presentes em sua narrativa visual. A obra Urihi xi wãrii tëhë thë urihi huëmaɨ wihi thëã [Os xamãs seguram a terra quando esta entra em caos], de 2011, por exemplo, se preocupa em demonstrar o trabalho de preservação da terra pelos xamãs, que se soma à conservação ambiental realizada pelos povos indígenas e tradicionais. “Não estudei na cidade para aprender a desenhar, eu estudava só na floresta, onde eu caçava no mato. Eu desenhava nas árvores, nas praias, desenhava nos coqueiros e nas folhas novas, com carvão. Eu descascava a árvore e fazia desenhos nos troncos. Desenho os parentes, os animais, árvores, os passarinhos, araras, macacos, antas, peixes. Quando eu aprendi a desenhar eu ouvia os pajés cantando e eu gravava na minha cabeça para desenhar depois. Eu desenho os espíritos. E quando eu sonho, eu estudo muito, penso muito e faço muitos desenhos do meu sonho”, conta Joseca Yanomami. 

No ano em que a homologação da Terra Indígena Yanomami completa 30 anos, as obras do artista também manifestam a expressão da luta indígena contra as ameaças que põem em risco os yanomami e a terra-floresta em que habitam com todos os seus seres visíveis e invisíveis, sugerindo, inclusive, a importância dos não indígenas nessa batalha. “A produção artística de Joseca Yanomami se investe da função de lembrar-nos a parte que nos cabe, como não indígenas, na defesa dos direitos dos povos indígenas e, por extensão, dos direitos da gente da floresta”, pontua David Ribeiro. “A chegada desses desenhos ao MASP é, portanto, a descida dos xapiripë a um território que, ao recebê-los, assume seu compromisso com a defesa da terra-floresta, de todos os que nela habitam, e com a cura dos males causados pelo povo da mercadoria à gente da floresta”, finaliza.

A exposição ainda conta com a exibição do vídeo SOPRO, do coletivo Barreira Y, com apoio do Fórum de Lideranças Yanomami e YeK’wana e do Instituto Socioambiental. A obra traz a projeção dos desenhos do Joseca Yanomami, acompanhada de falas de Davi Kopenawa Yanomami, realizadas em 2020 no congresso nacional, como parte da campanha #foragarimpoforacovid, contra o garimpo e a disseminação da Covid-19, além de outras doenças e males causados na terra yanomami por garimpeiros.

Joseca Yanomami: nossa terra-floresta integra a programação bienal do MASP dedicada às Histórias brasileiras (2021-22), por ocasião do bicentenário da independência do Brasil, em 2022. Este ano, a programação também inclui mostras de Dalton Paula, Madalena dos Santos Reinbolt (1919-1977), Judith Lauand e Cinthia Marcelle, além de Histórias brasileiras, uma grande coletiva.


SOBRE JOSECA YANOMAMI

Joseca Yanomami é um artista visual nascido em 1971, no rio Uxi u, e vive na comunidade Watoriki, da Terra Indígena Yanomami, no Amazonas. Participou de exposições na Fundação Cartier, em Paris, Xangai e Lille, no Instituto Tomie Ohtake e no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, e na Wellcome Foundation, em Londres. Seus desenhos apresentam personagens, cenas e paisagens do universo yanomami, muitos deles acompanhados por descrições feitas originalmente em yanomami pelo artista e que dão conta das muitas dimensões cosmológicas presentes em sua narrativa visual.


CATÁLOGO

Acompanhando a exposição, será publicado um catálogo em volume bilíngue (português/inglês) com a reprodução de todas as obras presentes na mostra. O livro, organizado por Adriano Pedrosa e David Ribeiro, inclui textos de Bruce Albert, David Ribeiro, Denilson Baniwa e Patrícia Ferreira Pará Yxapy. Com design de Nina Nunes, designer do MASP, a publicação ganhará edição em capa dura.


SERVIÇO

JOSECA YANOMAMI: NOSSA TERRA-FLORESTA 

Curadoria: Adriano Pedrosa, diretor artístico, David Ribeiro, assistente curatorial
1o subsolo

29.07 — 30.10.22
MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista 
01310-200 São Paulo, SP
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terça grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta a domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Ingressos: R$ 50 (entrada); R$ 25 (meia-entrada)

www.masp.org.br  

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