"Olhares Negros" apresenta o pensamento contemporâneo de mulheres negras sobre a sociedade brasileira

Olhares Negros, livro escrito por ativistas e intelectuais negras / Foto: Divulgação

Olhares Negros vem para apresentar uma soma de saberes, produzidos coletivamente por oito mulheres negras

A obra apresenta 49 artigos publicados ao longo de um ano na coluna Olhares Negros do portal Congresso em Foco e abordam assuntos relacionados à história e cultura afro-brasileira, racismo, legado das religiões de matriz africana, violência política, democracia e participação política, comunicação, educação, fotografia, produção audiovisual, literatura, racismo ambiental, entre muitas outras abordagens sobre as vivências de mulheres e homens negros no Brasil, seja no passado ou no presente.

 Esses artigos foram produzidos por oito ativistas e intelectuais negras que tem, desde outubro de 2020, escrito regularmente na Coluna Olhares Negros -- Wania Sant'Anna, Helena Theodoro, Vanda Machado, Dulce Pereira, Roberta Eugênio, Kelly Tiburcio, Iara Brandão e Mariana Maiara. Além disso, o livro conta com as apresentações da escritora e ativista Angela Davis, a advogada criminalista internacional Patricia Sellers, a sócia da Daniel Advogados Isabella Cardozo e o jornalista Sylvio Costa, fundador do portal Congresso em Foco.

Na apresentação da obra é ressaltada a importância do pensamento das mulheres negras sobre a sociedade contemporânea e suas estratégias de organização pública. "Quando nós, mulheres negras, nos levantamos coletivamente, trazemos mudanças para o mundo. Foi o que fizeram oito ativistas feministas negras brasileiras quando decidiram escrever artigos regularmente em um jornal digital, o Congresso em Foco, a partir de uma perspectiva que exige ruptura total com as abordagens tradicionais da mídia brasileira. Ao invés de se basearem em ideias e abordagens patriarcais, homofóbicas e racistas, seus artigos são inclusivos, compassivos e, ao discutir questões nacionais e internacionais, dão expressão ao profundo conhecimento ancestral das mulheres afro-brasileiras", declara Angela Davis, da Universidade da Califórnia.

Patricia Viseur Sellers, advogada criminalista Internacional e assessora especial para crimes de escravidão do gabinete do Procurador do Tribunal Penal Internacional, também destaca essa relevância do livro: "os artigos do Olhares Negros escancaram verdades imperativas da ainda existente negociação acerca da existência ontológica dos afro-brasileiros. Consideremos o corpo carnal de uma mulher negra. Houve um tempo que seu útero era comoditizado para parir crianças que nada mais eram do que mercadorias para seus algozes. No entanto, ainda hoje essas mulheres precisam negociar seus gemidos nos partos para não confrontar a premissa racial de que seus corpos negros são menos suscetíveis à dores. Consideremos também o corpo de um homem negro. Houve um tempo em que seus gritos de morte eram acompanhados pelo galopar das mulas ou pelo barulho de pedras que desmoronavam das minas e eram encarados com uma indiferença calculista pelos proprietários de escravos. Atualmente, esses gritos de morte são infligidos por guardas de lojas de varejos e banalizados para não impactar a operacionalidade e lucratividade dessas lojas".

 Sobre experiência de escrever a coluna Olhares Negros a historiadora e consultora de diversidade e inclusão da Daniel Advogados, Wania Sant'Anna, ressalta que essa é uma fonte de inspiração às gerações futuras. "Nós mulheres negras temos entregado, desde sempre, o melhor de nós a esse país e não somos reconhecidas em nossa dignidade e humanidade. O que escrevemos é para os nossos e nossas ao futuro para que eles sempre se lembrem dessa verdade: entregamos o nosso melhor". Para Roberta Eugênio, integrante da diretoria do Instituto Alziras e uma das autoras, Olhares Negros não é uma coluna, apenas. "É um espaço moderno e estratégico de aquilombamento. Nos ouvimos, nos reconhecemos, celebramos, dividimos angústias e alegrias. Nem tudo que debatemos se torna artigo. Mas tudo que se torna artigo, reverberou em todas. Intergeracional, político e espiritual", completa.

Kelly Tiburcio, cineasta e uma das autoras, destaca que durante muito tempo a mídia foi um espaço dedicado exclusivamente aos brancos. "Tudo o que víamos, ouvíamos e líamos não era sobre nós, com exceção das páginas policiais. Num contexto de reação política tão conservadora, que busca desacreditar toda a contribuição intelectual e cultural do legado negro-africano no país, termos um espaço dedicado a uma escrita que se contrapõe a toda essa estrutura é fundamental para a construção de uma sociedade antirracista", explica.

 A pesquisadora da história e da cultura afro-brasileira e uma das autoras, Helena Theodoro ainda ressalta que: "como mulher preta, com mais de setenta anos de vivências, poder falar, sem medo de dizer o que sinto e o que penso, num universo que sempre quis ser visto e comentado, através de um só olhar europeizado, é uma imensa alegria. Ter a liberdade de entender a minha fala como sendo eu do lado de fora, além de receber outras falas que ampliam e colorem o meu universo de vida é uma experiência única e privilegiada. Olhares Negros me possibilitou liberdade de existir com todas as minhas histórias, com minha ancestralidade e com a esperança num futuro pelo contato com as mais jovens que me permitiram renovação, encontros e muita energia boa".

 O poder da produção coletiva também é traduzido na entrega das autoras. Vanda Machado, pesquisadora, professora e autora do livro, fala sobre as trocas que teve durante o processo. "Sinto-me enriquecida pelo contato com textos que retratam um viés histórico de múltiplos significados. Buscamos aspectos pouco conhecidos da história que nos enriquece, fortalece e nos mantem acessas. Como girassóis nos iluminamos mutuamente em tempos nebulosos. Coletivamente construímos história de lugares e de personagens negras apagadas pelo tempo. Não nos faltou o olhar sensível de cada uma, mesmo na adversidade. Também, não nos poupamos nos momentos desfavoráveis à nossa gente. Foi aí que nos enchemos de paixão para entender, compreender, interpretar o outro que somos nós mesmo. Não temos dúvida que estamos em luta. A luta é também toca outras mulheres negras para que se tornem conscientes da força que somos quando nos levantamos juntas", declarou. 

 Ainda sobre o tema, Dulce Pereira, arquiteta, professora e uma das autoras, explicou que raras as colunas de escrita coletiva por mulheres e desconhecidas aquelas pautadas em veículos de alcance nacional, com autonomia e a partir de um coletivo auto-organizado. "Silenciamento, controle das pautas sobre racismo, definição de temas e abordagens, no caso de sites jornalísticos, compõem realidade universal. Colunas patrocinadas ou financiadas por instituições também têm temas e abordagens definidas. Olhares Negros traz outra mirada. Resume e expande a experiência única de reflexões de mulheres negras que atuam em diferentes áreas profissionais, militantes e ativistas intelectuais, com percepção geopolítica, formuladoras de conceitos e de estratégias para desmantelar o racismo, articular processos de poder compartilhado e planejar políticas públicas para justiça socioambiental. Trata-se de uma vivência intergeracional privilegiada de responsabilidade ancestral compartilhada com o presente, entrega para o futuro e entendimento das complexidades moldaram as estruturas de poder e exclusão", afirmou Dulce.

O livro teve a colaboração da Daniel Advogados por seu compromisso de fortalecer a escrita de mulheres negras no Brasil e as estratégicas de intenção, conexão e impacto que orientam o seu programa corporativo de diversidade e inclusão, o Daniel Plural. Sobre isso, Isabella Cardozo, coordenadora do programa e sócia da Daniel Advogados, conclui: "Olhares Negros vem para apresentar uma soma de saberes, produzidos coletivamente por oito mulheres negras, que retratam memórias, encontros e desencontros, felicidades e dores do ponto de vista epistemológico da negritude. É um livro visceral que gera uma reflexão profunda de que precisamos forjar uma nova e verdadeira alma brasileira, que reconheça e celebre a ancestralidade e intelectualidade africana como nascedouro e sustentação de nosso país".
 

O livro disponível no link.

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